quinta-feira, 4 de outubro de 2012



No finalzinho desse dia 04 de outubro, dia da morte de São Francisco de Assis, um poema da portuguesa Florbela Especa, a respeito do santo, e da morte de seu único irmão.
Belíssimo soneto...

In memoriam
Ao meu morto querido
Na cidade de Assis, Il Poverello
Santo, três vezes santo, andou pregando
Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando,
Da pobreza o tristíssimo flagelo,
Tudo quanto há de vil, quanto há de belo,
Tudo era nosso irmão! - E assim sonhando,
Pelas estradas da Umbria foi forjando
Da cadeia do amor o maior elo!
“Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água…”
Ah! Poverello! Em mim, essa lição
Perdeu-se como vela em mar de mágoa
Batida por furiosos vendavais!
- Eu fui na vida a irmã de um só irmão,
E já não sou a irmã de ninguém mais! 

Florbela Espanca - A mensageira das violetas

domingo, 15 de abril de 2012

Polêmica entre Caetano Veloso e Roberto Schwarz

Chega amanhã às livrarias, dia 16 de abril de 2012, o novo livro do crítico literário Roberto Schwarz. "Martinha versus Lucrécia" reúne diversos ensaios e, antes mesmo de seu lançamento, acendeu (ou reacendeu) polêmica entre o autor e o cantor e compositor Caetano Veloso, a partir de um texto sobre aspectos do livro "Verdade Tropical". Seguem abaixo dois links, que recebi ao longo da semana.
O primeiro, diponível em folha.com, contém uma apresentação da obra, a partir justamente do texto a respeito de Caetano:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1076216-schwarz-vs-caetano.shtml



Já o segundo é uma entrevista que Caetano Veloso concedeu a O Globo, na qual comenta o texto de Schwarz:

http://oglobo.globo.com/cultura/renovacao-da-critica-ao-tropicalismo-4629714



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Ai Deus e u É: poema musicado de D. Dinis

A Banda de Investigação Ai Deus e u É, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa., da qual participa meu amigo e professor da Universidade Federal de Sergipe, Luiz Eduardo Oliveira, produziu este belo video, com uma cantiga de amigo de D. Dinis. Ai Flores do Verde Pinho


http://www.youtube.com/watch?v=N-UQXT91AJk



sábado, 20 de agosto de 2011

A recepção da obra de arte em tempos de censura: O que nos ensina a peça Que farei com este livro?, de José Saramago

 Já está disponível no site da Revista Interfaces (Programa de Pós-graduação em Letras - Unicentro - PR) um texto meu a respeito da peça Que farei com este livro?, de José Saramago. Para acessá-lo, basta clicar em:

http://revistas.unicentro.br/index.php/revista_interfaces/article/view/1272/1180

e depois em "clique aqui". Segue abaixo o resumo do trabalho:


A recepção da obra de arte em tempos de censura: O que nos ensina a peça Que farei com este livro?, de José Saramago
Prof. Dr. Cláudio de Sá Capuano (UFRRJ)

Resumo

Escrita em 1980, Que farei com Este Livro?, peça de José Saramago, apresenta-nos o homem Luís de Camões, antes da publicação de Os Lusíadas, tentando romper as barreiras para ver seu livro publicado. Uma das questões desenvolvidas na peça é a necessidade de se adaptar, à censura, as exigências da escrita. Este artigo discute exatamente isso, estabelecendo uma discussão sobre o papel da censura como elemento
de coerção da escrita. Semelhante abordagem recai sobre o papel do próprio autor, ao escrever o livro.

domingo, 10 de julho de 2011

Nós também somos ibéricos - vídeo

O video é a minha fala no Congresso Associação Internacional de Estudos Galegos, realizado em julho de 2009 ns universidades de Santigo de Compostela, Vigo e A Coruña, Galiza, Espanha. A mesa - Os estudios Galegos nas Américas: Estudios de Literatura Galega no Brasil - foi mediada pela professora Maria do Amparo Maleval, que abriu as apresentações,  e contou também com as apresentações de Caroline Reis, Lenora Mendez, Cláudio Capuano e Carmen Figueiredo.
Para assistir ao vídeo, basta clicar no título da postagem.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Os supostos erros no livro recomendado pelo MEC: só mais uma pequena opinião...


 Já meio ultrapassado, o tema me voltou à mente hoje, depois que recebi um email apontando o problema ortográfico que está estempado na capa de O Globo de hoje: http://pixhost.info/pictures/1844640
 A polêmica sobre o livro didático  que supostamente ensina o erro... Segue abaixo um pequeno texto meu, postado no ICHS em foco (http://ichsemfoco.blogspot.com/p/opiniao.html), blog do instituto em que trabalho, na UFRRJ:


Cabe hoje ao jornal muito mais informar que noticiar, ainda que muitas vezes informe noticiando. É que pela internet, em tempo real, fica-se sabendo o que aconteceu, acessando-se páginas de notícias de qualquer parte do mundo, com muito mais eficiência que qualquer jornal impresso. Imaginem a cobertura de um conflito, como uma Segunda Grande Guerra, com cobertura on-line, 24 horas por dia...
A questão é que, se a internet rouba ao jornal sua missão primeira de noticiar, ela também abriga inúmeras possibilidades para o debate de ideias. O melhor exemplo talvez seja o espaço reservado ao fim de cada matéria para que o leitor opine. Juntem-se a isso as inúmeras redes de relacionamento disponíveis, entre outros meios de divulgação on-line, e perceberemos que são a simultaneidade e a velocidade duas das mais contundentes e contemporâneas características da web.
Essa já extensa preleção prepara o meu espírito para um breve comentário a respeito de uma polêmica que, como praticamente tudo no nosso tempo, mal aparece e já é relegada a segundo plano. Não sei como tudo começou, mas acredito que foi a partir de uma pequena notícia de que o MEC gastou dinheiro para comprar e adotar um livro que ensina erros de Português. Erro de português para mim, que me dedico a literatura, foi o que fizeram nossos antepassados lusos: em vez de se despirem, vestiram os índios, como bem escreveu em versos Oswald de Andrade há quase cem anos. Entre “tupy” ou “not tupy”, ficamos com a segunda opção. Se tivéssemos aceitado a primeira, o MEC certamente seria acusado hoje de querer ensinar erros de tupi-guarani...
Talvez na ânsia de verem suas opiniões publicadas, gente famosa, seja por seu efetivo valor acadêmico, seja porque estejam inseridos na máquina publicitária dos grandes grupos editoriais, esbravejaram por escrito. O mesmo caminho seguiu o senso comum, nas inúmeras “correntes cibernéticas” de indignação. O que fica claro é que, pela argumentação (coerente ou caótica) desses textos, há sempre o mesmo equívoco: a falta de leitura. Um dos últimos artigos que li a esse respeito foi do poeta Ferreira Gullar (já nem me lembro onde). Ele, pelo menos, assume, no fim do texto, que não leu o capítulo do referido livro... Eu então me pergunto: o que leva as pessoas a emitirem opinião sobre o que não leram e que, na maior parte dos casos, nem mesmo é de seu conhecimento específico? Pior: por que elas fazem isso sem ao menos tentar se informar? Faço tais perguntas por ter lido muito insistentes repetições de informações que não procedem. Exemplo: “o MEC adotou o livro”. O MEC não adota livros, apenas os recomenda e compra para as escolas que escolherem a obra recomendada. O livro ensina a escrever/falar errado? Valoriza o erro em detrimento do acerto? Uma leitura superficial do primeiro capítulo do tal material didático mostra que não. O texto aborda de forma até bastante tradicional vários itens da gramática portuguesa... Certo ou errado são conceitos que há décadas não se aplicam aos estudos de expressão linguística, pelo simples fato de que há muitas situações em que variantes regionais, diastráticas ou diafásicas são mais adequadas do que a variante padrão, para o efetivo estabelecimento do processo comunicativo.
Por acaso isso quer dizer que se deve valorizar o desvio em relação ao padrão culto da língua no ensino? Claro que não. Qualquer professor de Português sabe que a sua disciplina tem por alvo maior o trabalho exaustivo com uma das possibilidades de variação, justamente a norma culta da língua. Isso também não quer dizer que seja possível ou produtivo lidar com a língua padrão negligenciando as diversas possibilidades expressivas. A questão me parece é que quem opina sem conhecimento de causa não tem como avaliar que há uma abismal diferença entre o português que, por exemplo, crianças como os meus filhos falam em casa ou na rua desde que nasceram e aquele utilizado por crianças carentes. Eles aprenderam a falar em uma família que há três gerações pelo menos teve acesso à escola, tendo alguns de seus ascendentes completado o ensino superior. A relação que eles têm com o nosso idioma, na variante padrão trabalhada na escola, é muito mais natural do que a de um garoto cuja família (há família?) nunca teve oportunidade de ter uma escolaridade mínima. A relação que crianças como essas, ainda maioria no Brasil, estabelecem com o português padrão é comparável com a que pessoas como eu ou os meus filhos estabelecemos ao aprender uma língua estrangeira. Talvez eles tenham até mais dificuldades, devido à evidente proximidade entre a norma culta e a popular. Se o aluno, por sua vez, for jovem ou adulto, o processo de aprendizado do padrão é ainda mais dificultoso...
Independente de qualquer outro aspecto, o que me parece que ficou de fora desse debate é que escrever bem não é apenas redigir textos sem equívocos ortográficos ou de concordância, por exemplo. Um texto claro envolve, no seu processo de elaboração, uma complexidade de operações linguísticas muito mais ampla. Desenvolver esse tipo de competência no uso falado ou escrito da língua, dentro da norma culta, é que é tarefa árdua, até para os que adquiriram a língua materna na sua variante padrão. Ensinar o idioma materno na escola vai muito além de simplesmente decorar ortografia, bem ao gosto dos soletrandos televisivos. É um processo denso, uma via de mão dupla entre leitura em diversos níveis de complexidade e práticas de escrita. Só assim o texto pode ser produzido com informatividade, clareza e adequação ao padrão. É algo tão problemático que, mesmo escolas de alto nível das mais desenvolvidas cidades brasileiras, devolvem à sociedade, após doze anos de ensino fundamental e médio, jovens que não conseguem se expressar minimamente por escrito. Como poderão ser considerados leitores (ainda que incipientes) da sociedade em que vivem?

terça-feira, 22 de março de 2011

Caim - o último romance de José Saramago

 Eu já havia postado aqui o link da resenha do livro Caim, que escrevi em 2009 e publiquei na revista Palimpsesto (da pós-graduação em Letras da UERJ). Agora, relendo trechos do livro e a  própria  resenha, apresento abaixo o texto na íntegra:

Capa da edição brasileira de Caim.



REVISITANDO HISTÓRIAS BÍBLICAS: CAIM, DE JOSÉ SARAMAGO


A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.
(Saramago, 2009, p. 88)

Caim é o que odeia deus (p. 142).


Após dezessete anos da publicação de O Evangelho segundo Jesus Cristo, o  escritor português José Saramago retomou um tema criado a partir do evangelho: Caim. Publicado no segundo semestre de 2009, o livro é um romance, no qual, por meio da figura do primeiro filho do primeiro casal humano, somos confrontados não só com o tema, mas também com os posicionamentos em relação aos preceitos religiosos de base judaica do nosso prêmio Nobel de 1998.
A leitura de Caim é fluida, agradável, instigante. Nela nos deparamos com uma história, cujo princípio coincide com início da Bíblia. Nos dois primeiros capítulos, ali estão Adão e Eva às voltas com a incipiência do existir. Ganham a fala, comem do fruto proibido, perdem o direito de estar no paraíso. Uma vez expulsos, são informados por um querubim, de que não são os únicos humanos sobre a Terra.
É só no terceiro capítulo que aparecem Caim e Abel. De breves referências à infância comum dos dois, chega-se à situação do assassinato. Tendo suas oferendas a Deus sistematicamente rejeitadas, Caim, tomado pela ira e pela inveja, arma uma cilada e mata o irmão. Dá-se o primeiro dos inúmeros encontros entre o personagem e Deus. Em todos, configuram-se desentendimentos gerados por absoluta diferença de pontos de vista. Se Deus se indigna com o ato do personagem contra o irmão, ele se defende dividindo com o próprio Deus a sua responsabilidade. Tivesse ele aceitado os seus sacrifícios, os únicos que ele poderia oferecer, e não teria ocorrido o fratricídio.
Não há no livro um único posicionamento crítico em relação às incoerências do texto bíblico, assim nos apresentado pela voz de um narrador em terceira pessoa, que seja novidade para quem acompanhe minimamente a trajetória literária de José Saramago. No romance, Caim tem um constante confronto ideológico com Deus. Enquanto este é o tirano-vingador, capaz de trucidar populações inteiras, sem poupar nem crianças, aquele é o leitor cético dos tempos bíblicos, cujos pensamentos, quando não são por ele mesmo verbalizados, o são constantemente pelas palavras do narrador, eco anacrônico da voz do presente no pensamento do personagem.
Como o Caim bíblico, o do romance é marcado por Deus e condenado a errar indefinidamente. Pode-se extrair, contudo, justamente do tipo de errância empreendida pelo personagem o que há de realmente notável no romance. Se o Caim bíblico será condenado a errar pelo mundo, o de Saramago erra pelos tempos... bíblicos. Por um mecanismo de natureza fantástica, o personagem se vê diante de fronteiras temporais. Ao cruzá-las, transforma-se em testemunha ocular de episódios do Antigo Testamento.
O primeiro lugar a que chega é a terra de Noh. Ali reina Lilith, figura ausente no Evangelho. Poderosa e sedutora, Lilith leva para a sua cama os homens que deseja, para usá-los e destruí-los. Alertado dos perigos que lhe podem advir de um encontro com a mulher, o jovem Caim obviamente não consegue lhe passar despercebido. Lilith percebe o jovem trabalhador, sujo pelo ofício de pisar o barro, e o convoca ao palácio. A cena que antecede o primeiro encontro íntimo dos dois é emblemática e guarda um aspecto de que podemos nos utilizar para ler Caim: a constante passividade subitamente interrompida por atos bruscos.
Imundo, o personagem é levado até a senhora da cidade. Antes é preparado para o encontro. Amas o lavam por completo. Caim, como em diversos outros momentos da narrativa, deixa-se ficar, passivo, expectador dos acontecimentos. Igualmente passivo ele se manterá, mesmo quando elas, ao se deterem no seu sexo, provocam-lhe ereção e ejaculação. É quando subitamente se dá conta do que foi fazer ali.
Somente na presença de Lilith é que ele sairá do estado de passividade. O jovem que desperta o desejo da senhora de Nod, o assassino do irmão, é também o homem casto, pela primeira vez unido sexualmente a uma mulher. Caim revela-se tão vigoroso no ato sexual que se diferencia dos outros homens com quem Lilith esteve. Contrariando o usual, o personagem permanece na cidade como seu preferido.
Caim naturalmente desperta ciúmes em Noah, marido de Lilith, que trama a sua morte. O personagem, porém, leva na testa a proteção de Deus, sob a forma de um sinal negro. Lilith vinga-se dos escravos envolvidos na emboscada, mas poupa o marido. Caim, por sua vez, revela-lhe toda a sua história. Mesmo sabendo que a mulher engravidara, o primogênito de Adão parte de Nod.
A partir desse momento, inicia-se o trânsito do personagem pelos tempos bíblicos. Não há, contudo, um respeito cronológico aos acontecimentos. O primeiro encontro de Caim é com Abraão, que está prestes a sacrificar a Deus o filho Isaac. O personagem se antecipa ao anjo, impede o ato e reprova tanto a atitude de Abraão quanto a de Deus, que exigira tal sacrifício. Em um segundo encontro com Abraão, Caim o encontrará mais novo, antes do nascimento do filho, e se envolverá no episódio da destruição de Sodoma. Há nesse momento uma primeira referência à morte indiscriminada de pecadores e inocentes na cidade, sobretudo de crianças.
Na sua errância – quer seja no encontro com Moisés ou Josué, quer seja por assistir aos sofrimentos de Job – Caim passa a confrontar o seu único crime, o fratricídio, aos inúmeros desmandos cometidos por Deus, em nome de por à prova o seu próprio poder, com toda a falta de propósito que isso possa encerrar.
Antes do último encontro, com Noé, Caim retorna a Nod e se reencontra pela última vez com Lilith. Lá sabe do nascimento do filho e da morte de Noah. Antes de morrer, o marido de Lilith dera à cidade o nome de seu filho: Enoch.
O último episódio do livro envolve Noé, Caim e Deus. O personagem vê a construção da arca e nela toma lugar quando acontece o dilúvio. A embarcação será o surpreendente palco da batalha final entre Caim e o criador.
Mesmo se lermos o romance como romance, a ficção como ficção, o que por si só esvaziaria qualquer discussão de ordem religiosa, não é possível deixar de perceber um interessante ponto de vista exposto no romance. Há a defesa de uma ética, de uma retidão de conduta, reveladas pela coerência de atitudes tanto do protagonista, quanto de Lilith, apesar de ambos terem uma trajetória marcada por atitudes reprováveis do ponto de vista religioso.
Muito pouco nos informa a Bíblia a respeito de Caim. Após matar o irmão, segue para o desterro. Dele só se sabe que deixou descendência a partir do filho Enoch, unido a uma mulher não nomeada.
Símbolo da mulher que age, Lilith assume no livro o lugar da esposa de Caim, mãe de Enoch. A união de ambos revela ao leitor ser possível, partindo de histórias moralmente condenáveis, manter uma dignidade que sobrepõe tais tipos de valores. A Lilith do livro de José Saramago é o que é. É digna justamente por não se envergonhar de sua natureza. Revela-se inclusive capaz de amar um homem, independentemente de seus erros.
Caim é o fratricida, autor do primeiro e terrível crime da humanidade. Por isso cumpre a pena de jamais ter pouso, de jamais poder estar em paz. Assim lemos no livro, no qual os nomes próprios são sempre grafados em minúsculas: “para caim nunca haverá alegria, caim é o que matou o irmão, caim é o que nasceu para ver o inenarrável”(p. 142).
O personagem, no entanto, guarda em si uma pureza, uma ingenuidade que lhe faz grande e forte diante de Deus:

Apesar de assassino, caim é um homem intrinsecamente honesto, os dissolutos dias vividos em contubérnio com lilith, ainda que censuráveis do ponto de vista dos preconceitos burgueses, não foram bastantes para perverter o seu inato sentido moral da existência, haja vista o corajoso enfrentamento que tem mantido com deus, embora, forçoso é dizê-lo, o senhor nem de tal se tenha apercebido até hoje, salvo se se recorda a discussão que ambos travaram diante do cadáver ainda quente de abel (p. 143).


Em seu romance de 2009, José Saramago se utiliza de recursos discursivos frequentes em seus textos. A ficção preenche lacunas de significação encontradas, nesse caso específico, pelo texto bíblico consagrado como versão oficial. Trata-se de um claro diálogo estabelecido com a Bíblia. No entanto, ao trazer Lilith para a narrativa, a discussão se amplia, pois coloca em pauta a validade de outras versões de histórias que sempre circularam no seio da cultura ocidental.
A representação imaginativa do cotidiano dos primeiros tempos bíblicos é outro procedimento que assemelha a presente obra a tantas outras, também de sua autoria. Da mesma forma, as personagens Lilith e Eva se apresentam como forças femininas, comparáveis a tantas outras criadas pelo romancista português em sua extensa bibliografia.
Por fim, merece destaque a presença de um narrador cuja voz nitidamente ecoa do presente, fazendo o leitor não se esquecer de que o texto lido tem autoria definida e não representa uma verdade dos fatos. É o que ocorre no trecho:

Que eles não disseram aquelas palavras, é mais do que óbvio, mas as dúvidas, as suspeitas, as perplexidades, os avanços e recuos da argumentação, estiveram lá. O que fizemos foi simplesmente passar ao português corrente o duplo e para nós irresolúvel mistério da linguagem e do pensamento daquele tempo. Se o resultado é coerente agora, também o seria na altura porque, ao final, almocreves somos e pela estrada andamos. Todos, tanto os sábios como os ignorantes (p. 47).


Em suma, vemos em Caim o autor de sempre: inteligente, cáustico, irredutível em suas convicções éticas. O que de passional pode haver nas discussões a respeito do romance são fruto certamente da escrita apaixonada e apaixonante de José Saramago.


Referências:

Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Paulus, 2002.

SARAMAGO, José. Caim. São Paulo, Cia das Letras, 2009.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Polêmica sobre o livro " Produção de Presença", de Hans Ulrich Gumbrecht



Nas últimas semanas, o caderno Prosa e Verso do jornal carioca O Globo vem abrigando uma interessante polêmica, iniciada a partir da publicação da resenha da professora Andrea Daher, ao livro do Produção de Presença, de Hans Ulrich Gumbrecht. Vale à pena acompanhar! Listo abaixo os links postados no interessantíssimo blog "Observatório da Crítica", desenvolvido por pesquisadores da UFBA. Para visualizar, basta copiar o link e colar no navegador. É possível imprimir a página ou fazer um download do arquivo em pdf. A imagem acima, com arte de Stéphanie Saramago, foi obtida em:
http://puc-riodigital.com.puc-rio.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=7762&sid=55

Resenha de Andrea Daher - 19/02/11:
http://observatoriodacritica.com.br/resenhas/resenhas-de-andrea-daher/resenha-do-livro-producao-de-presenca-de-hans-ulrich-gumbrecht-por-andrea-daher/

Réplica de Hans Ulrich Gumbrecht - 26/02/11:
http://observatoriodacritica.com.br/polemicas/polemica-entre-andrea-daher-e-hans-ulrich-gumbrecht/resposta-de-h-u-gumbrecht-a-resenha-de-seu-livro-producao-de-presenca/

Tréplica de Andrea Daher - 05/03/11 :

http://observatoriodacritica.com.br/polemicas/polemica-entre-andrea-daher-e-hans-ulrich-gumbrecht/treplica-de-andre-daher-a-gumbrecht-o-globo-de-05-de-marco-de-2011/

Resposta de Gumbrecht à tréplica de Andrea Daher - 12/03/11:

http://observatoriodacritica.com.br/polemicas/polemica-entre-andrea-daher-e-hans-ulrich-gumbrecht/resposta-de-gumbrecht-a-treplica-de-andrea-daher/

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

NEI LOPES, CHICO BUARQUE, O SAMBA: EXERCÍCIO DE LEITURA...


Em meados de outubro de 2010, no dia em que os mineiros chilenos eram resgatados de seu prolongado cárcere subterrâneo, saí de casa, rumo a Cabo Frio, para participar como membro organizador das Tardes Literárias dentro da Festa Portuguesa, evento turístico naquele município. Naquele dia, tive a oportunidade de ser levado à Região dos Lagos no mesmo carro que um dos palestrantes, o intelectual brasileiro Nei Lopes.
Morador de Seropédica, município da baixada fluminense, sede da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, instituição na qual trabalho desde março de 2010, o carioca nascido e criado no bairro do Irajá brindou-me com uma agradável conversa, nas quase duas horas em que viajamos juntos entre as duas cidades fluminenses. Nei Lopes é o tipo de pessoa capaz de falar horas seguidas sobre os mais variados assuntos, sem ser repetitivo. Numa ocasião, assisti a uma aula sobre cultura negra por ele ministrada ao longo de uma manhã e uma tarde de sábado. No final, nenhum cansaço! Foi um sábado digno daquilo que uma aula deve realmente ser...
Depois da conversa na viagem, houve o almoço e mais tarde a palestra, sobre a influência do samba na sua literatura, e o café na manhã seguinte antes de seu regresso à casa. Em nenhuma das oportunidades, repito, cansei-me de ouvi-lo, pois a conversa é sempre fluente, as informações sempre novas. À noite, numa interessante mesa com o professor André Valente da UERJ, Nei afirmou ser a Bossa Nova uma das marcas da cultura brasileira no exterior e que o referido movimento musical brasileiro é nada mais que uma ramificação do samba. Assim atestam, por exemplo, os inúmeros títulos de canções da Bossa Nova que têm a palavra “samba” (do avião, de uma nota só...) contidas no seu título. Feliz constatação!
Pois bem. Guardemos a informação. Encerrada as eleições de 2010 havia não mais que dez dias, pego-me lendo numa revista semanal de ampla circulação no país há mais de 40 anos e me deparo, na seção “panorama”, com um quadrinho em que são listados semanalmente um “sobe e desce”. O que é isso? O leitor desavisado, ou pouco competente no ato de ler, como é infelizmente a realidade da maioria dos brasileiros, certamente suporá que o “sobe” contém o que houve de positivo na semana e que o “desce” registra o contrário. Tiremos nossas conclusões...
O “desce” daquela semana foi para a câmara dos deputados por ter concedido (transcrevo) “a Medalha Mérito Legislativo a João Pedro Stedile, líder do MST, a organização criminosa que promove terrorismo no campo”. Vai também para Franklin Martins, que - “ótima notícia para a verdade” – deverá ficar fora do governo Dilma e, por fim, para a maconha, cuja legalização foi rejeitada em plebiscito na Califórnia...
Já o “sobe” mencionava o nadador Thiago Pereira, ganhador da Copa do Mundo de Natação em piscina curta, e as reservas internacionais, que atingiram o maior valor da história. Por fim, a nota que mais me chamou a atenção. O alvo? Francisco Buarque de Hollanda.


Como Nei Lopes, Chico é um intelectual, brasileiro e carioca. Consagrado na música popular brasileira, como cantor e compositor, enveredou há muito tempo pelos caminhos literários e vem pouco a pouco sendo reconhecido como escritor. Nisso, as trajetórias das duas personalidades da cultura brasileira convergem. Divergem talvez apenas pelo fato de Nei Lopes, além de ser cantor, compositor e escritor, como Chico, ter formação jurídica e ser hoje um profícuo pesquisador autodidata da história da cultura negra, tanto no Brasil, quanto em toda a diáspora negra principalmente na América e também na chamada “antiguidade da África”.
Não é, no entanto, de Nei Lopes que me ocupo aqui. Nem é exatamente de Chico Buarque, senão da frase que o colocou no “sobe” daquela semana:

“Os jurados ainda nem se reuniram, mas já está tudo armado para o sambista carioca, autor do enredo Leite Derramado, ganhar o Prêmio Portugal Telecom no dia 8”.

A frase afirma “metaforicamente” que Chico Buarque “subia” naquela semana, não pelo prêmio Jabuti que conquistou havia alguns dias, muito menos pelo que representa para a história da cultura brasileira, mas pela “armação” (o termo provém do próprio texto) em nível internacional que faria com que o brasileiro ganhasse o prêmio português.
Prefiro ler, a partir dessa, outra mensagem, subliminar ao texto publicado. A conclusão a que chego é que (desastradamente?) foi veiculado um conteúdo ideológico no mínimo conservador (e míope – certamente não pelo seu conservadorismo), que acaba por (involuntariamente?) reforçar um pensamento preconceituoso a respeito das raízes da cultura popular brasileira.
Vamos lá. No texto, Chico é o “sambista carioca”, aquele mesmo, frequentemente associado à malandragem, sinônimo de improdutividade e de banditismo, quase sempre afrodescendente. São os velhos lugares comuns tão presentes numa certa mentalidade brasileira. Retorno a Nei Lopes para observar que o efeito pejorativo que o epíteto “sambista carioca” poderia emprestar à figura de Chico sai pela culatra. Por sua ligação com a Bossa Nova e com a própria MPB (ninguém precisa gostar dos movimentos musicais para perceber isso), Chico Buarque pode sim ser considerado um sambista. Curiosamente, não é a palavra “sambista” que vem à cabeça do senso comum quando se escuta o nome de Chico Buarque.
No entanto, se ele fosse apenas sambista, já seria uma maravilha, uma grande demonstração de afinidade com a cultura popular brasileira, ainda mais por ter ele a origem familiar que tem. Ora, ao referir-se ao músico como “sambista carioca”, autor de um “enredo” a ser premiado por uma manobra seja lá de que natureza, o texto apresenta todo o seu desprezo velado pela importância do samba e de toda a cultura popular desenvolvida por afrodescendentes ao longo do século XX, especialmente no âmbito da cidade do Rio de Janeiro.
O próprio termo “enredo”, utilizado como sinônimo de história contada, ficção, livro, soa-me como uma alusão depreciativa àquilo que fez com que um dos maiores fenômenos da cultura popular brasileira ganhasse a importância que têm hoje: as escolas de samba. Sim, porque são elas que anualmente desenvolvem na avenida um enredo, em um espetáculo único, conjugando artes plásticas, música, poesia e dança, que só se completa no seu todo durante o desfile. Não há como não constatar que, à semelhança do que ocorre com o boi no Amazonas, reunir milhares de figurantes, para contar uma história em pouco mais de uma hora de desfile, por meio da música e da dança, com um conjunto de pessoas que não se conhecem e muito pouco ensaiaram para que todo o espetáculo se dê por completo exclusivamente no momento do desfile, é algo extraordinário. Qualquer pessoa que conheça conceitos teóricos mínimos de literatura consegue perceber, em um desfile de escola de samba, toda a complexidade que envolve a representação mimética da realidade, como ocorre na literatura e em outras artes como o teatro, o cinema, a ópera.
Repito: parece-me inócuo tentar associar pejorativamente a imagem do escritor Chico Buarque a outras imagens como a do “sambista carioca”, pois isso só agrega valor à figura de um intelectual que há décadas demonstra o valor que tem.
Vamos talvez fazer de conta que não nos demos conta de que as associações feitas entre “sambista” e “malandro” ou “bandido” apontam em última instância para as imagens ainda pejorativamente correlacionadas à figura do próprio afrodescendente brasileiro.
De fato Chico Buarque ganhou o prêmio da Portugal Telecom dias após a publicação da revista. No entanto, se havia suspeita de que algo seria “armado”, como se afirma no caso do prêmio português, era melhor que se tivesse feito uma matéria jornalística a respeito disso...

Cláudio Capuano
(imagens da internet)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Professor Leodegário de Azevedo Filho: pequena homenagem


Soube por acaso ao longo dessa semana, que faleceu, no Rio de Janeiro, em 30/01/2011, o emérito de Literatura Portuguesa da UERJ, o professor Leodegário Amarante de Azevedo Filho.
Para os que estudaram Letras na UERJ nos anos 70, 80 ou 90, o nome do professor, e os eventos literários por ele realizados a cada ano, sempre em julho, por mais de três décadas, é bem conhecido. Para a comunidade das Letras brasileira e portuguesa também. No entanto, pouco se noticiou sobre o desenlace do camonista de 83 anos.

Depois que soube da notícia, lembrei-me de um amigo, professor e poeta “carioca de Arraial do Cabo”, e de uma história que ele me contou há tempos. Aluno do Leodegário nos anos 50 (acho), no Colégio Pedro II, o então “pupilo” admirou-se da constatação de que o Bocage de quem falava o mestre era o mesmo das piadas pornográficas... Pedi-lhe então um poema, um soneto, à moda de Camões. Pedido atendido, poema publicado neste blog, na primeira postagem de 2011! Valeu, Eraldo!


AO MESTRE
Eraldo Mai

Leodegário Amarante de Azevedo
Filho (completo nome), o professor
Que em sua diligência e todo o amor
Fez-me de Português jamais ter medo.

Muito ao contrário, desde muito cedo,
Despertou-me das letras o pendor,
Pela do Lácio a derradeira flor
O gosto, porque a via qual folguedo.

Lembra-me vivo sempre aquele dia
Em que, ginasiano, eu me encantava
Com o professor que a nós poemas lia.

Ouvi-lo ler Camões (que tanto amava)
Era pra mim motivo de alegria
E em mim mundos de sonhos despertava

terça-feira, 6 de julho de 2010

Ainda sobre a morte de José Saramago - nota sobre a nota da Revista Veja


José Saramago faleceu numa sexta-feira, dia 18 de junho de 2010. No dia seguinte, chegou aos assinantes a edição 2170, com uma nota sobre a morte do escritor. Se, por um lado, a rapidez com que o fato foi noticiado pela revista é notável, por outro o tom do texto soou-me inadequado e até mesmo desrespeitoso, principalmente nas suas últimas linhas... Escrevi uma carta à revista, que obviamente não foi publicada. Transcrevo:

Achei louvável Veja ter conseguido incluir na edição desta semana, praticamente um dia após a seu desenlace, nota sobre o falecimento de José Saramago. Acredito, no entanto, que o único prêmio Nobel de Literatura em Língua Portuguesa mereça, para a próxima edição, uma matéria mais completa. Aproveito a oportunidade para apontar equívocos e comentar alguns pontos da nota publicada na edição 2170.

Saramago utilizou a História como matéria de criação literária. Não fez “revisão histórica” pelo simples fato de não ter sido historiador. O ano da morte de Ricardo Reis não é um tributo a Fernando Pessoa. É um romance que tem tanto o poeta quanto seu heterônimo como personagens ficcionais, em criações até bastante discutíveis. O livro trata do ano de 1936 em Portugal, mais exatamente do final de 35 ao final de 36, ou ao período que vai da Intentona Comunista no Brasil à Revolta dos Barcos em Portugal. O ano de 36 corresponde a um momento em que o regime fascista português, sob o comando de Antônio Salazar, é acirrado. O fascismo em Portugal se extenderia até 1974 (quase trinta anos após a queda de Hitler e Mussolini). Aliás, Levantado do Chão dá conta do horror que foi o totalitarismo de direita em Portugal, por quase 50 anos. É, portanto, tão “histórico” quanto os títulos citados.

É um reducionismo crítico aludir a livros como O Evangelho segundo Jesus Cristo e Caim como meras “provocações com a religião”. Ambos são romances ditos “históricos”. O tema de fato lhe era caro, tanto que o tratou também em peças como In Nomine Dei e A segunda vida de Francisco de Assis. Se a igreja se sentiu provocada por uma visão outra apresentada sobre suas próprias contradições, isso não era exatamente um problema do autor, muito menos dos seus leitores.

Injusto também me parece com inúmeros autores de língua portuguesa atribuir a ele a quase exclusividade de ter criado “estilo particular e inconfundível” na literatura. Esquecendo os inúmeros autores já falecidos, pode-se citar, entre os vivos, sem maior dificuldade, um de cada continente: Lobo Antunes, Mia Couto e Ariano Suassuna!

Por fim, Saramago sempre se apresentou como comunista, o que, aliás, era um direito seu ou de qualquer cidadão em um mundo democrático. Apesar de ter rompido com Fidel Castro há alguns anos, por discordar de atitudes totalitárias do regime cubano em relação a jornalistas, Saramago foi, como vários outros intelectuais em uma determinada época, um entusiasta das tentativas de implatação do socialismo no mundo. Tais posicionamentos são datados e foram constantemente revistos e repensados pelo escritor. Se era um “Senhor Polêmica”, assim o foi por ter coragem de “pôr o dedo nas feridas”, fossem elas religiosas, políticas ou sociais.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Sobre a vida (e a morte) de José Saramago

Seria fácil dizer que no dia 18 de junho de 2010 a Língua Portuguesa amanheceu mais pobre, talvez menos criativa, pois morrera em Lanzarote um de seus maiores expoentes literários. De fato, José Saramago, único prêmio Nobel de Literatura da nossa língua, pode ser colocado lado a lado com nomes como Camões, Garrett, Eça, Pessoa, Machado, Guimarães, Clarice, e os mais recentes, africanos, Mia Couto, Pepetela, Luandino, entre tantos outros... No entanto, se é fato que a partir de agora, dele só nos restam releituras e a espera por inéditos e dispersos, por outro fica a certeza de que somos privilegiados por termos tido, em nossa língua, alguém que, além de ter mexido com as formas tradicionais de narrar, de articular o discurso, ainda soube tratar de temas do passado, tendo em vista sempre reflexões sobre o presente.
Poderíamos, parafraseando Drummond (sobre a morte de Cacilda Becker), dizer que “morreram” José Saramago. Mas não: os Mau-Tempo, de Levantado do Chão, Baltazar e Blimunda, do Memorial, e Lídia, Marcenda e Ricardo Reis, e Maria Sara e Raimundo Silva, junto com Ouroana e seu soldado, e Camões, Ana de Sá e Francisca de Aragão, e todos os sem nome de Ensaio sobre a cegueira, e ainda, num salto para a frente, Caim, e noutro para trás, o próprio Jesus Cristo, todos, personagens de José Saramago, permanecerão ali, orgulhosos em páginas sempre prontas para serem lidas, páginas escritas por um filho e neto de analfabetos.
Autor até certo ponto bissexto, Saramago escreveu inúmeros romances, mas também passou pela poesia, pelo conto e pelo teatro. Mais que isso, tornou-se célebre nas últimas décadas, por declarações polêmicas, muitas vezes irônicas, quase sempre dirigidas à igreja, ateu e comunista que foi. Agora, como mais ou menos disse, pela voz de papel do seu Camões-personagem, tudo enfim que nos resta (e isso não é nada pouco), são papeis...
Fui aos papeis, aos meus livros anotados e encontrei palavras que, essas sim, exprimem parte do que pode ser dito por elas. As palavras do escritor...

Quem sabe se a cegueira não seria preferível à visão agudíssima do falcão instalada em órbitas humanas?” (Manual de Caligrafia e Pintura, 1977)

As palavras não dizem tudo quanto é preciso” (“São Asas”, em: Deste Mundo e do outro, 1971)

Deveria isto bastar, dizer de alguém como se chama e esperar o resto da vida para saber quem é, se alguma vez o saberemos, pois ser não é ter sido, ter sido não é será... (Memorial do Convento, 1982).

Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita (Memorial do Convento, 1982)

Mas são também os sonhos que fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há na cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu (Memorial do Convento, 1982)

“... a morte é a suma razão de todas as coisas e sua infalível conclusão, a nós o que nos ilude é esta linha de vivos em que estamos, que avança para isso a que chamamos futuro só porque algum nome lhe havíamos de dar, colhendo dele incessantemente os seres velhos a que tivemos de dar o nome de mortos para que não saiam do passado” (A jangada de pedra, 1986)

Mas é na última frase, do último livro publicado, Caim, que lemos: “A história acabou, não haverá nada mais que contar.” Não. A história não acabou, nem para nós, leitores, nem para o escritor, que não passará (nem passarinho!). O que talvez Saramago tenha legado aos futuros escritores é o desafio de dizer, dizer sempre. Seja por meio de um estilo inovador, como foi o seu, sobretudo na prosa, seja pelas formas mais convencionais. Porque a própria vida é o manancial de histórias a serem contadas e recontadas.
E aqui, do lado de cá do oceano, onde também floresce a cada dia a nossa língua portuguesa, aqui, onde nem o mar acaba, nem a terra principia, “...acaba-se a exaltação, fica a melancolia” (Memorial do Convento, 1982).

Seropédica, RJ, 23 de junho de 2010.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O perigo da história única

Assistam a esse vídeo. Vale muito, pois podemos claramente entender, a partir dele, o que fazemos com aquilo que ignoramos!
Para assisti-lo, basta clicar no título desta postagem.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Cenários construtivistas: temas e problemas

Lançado hoje, pela 7Letras, durante o VII Painel Reflexões sobre o insólito na narrativa ficcional, na Uerj, o livro "Cenários Construtivistas: temas e problemas" foi organizado pelas pesquisadoras Daniela Versiani e Heidrun Krieger Olinto.
O livro tem a participação de Ana Lucia de Souza Henriques (Uerj), Cláudio de Sá Capuano (UFRRJ, Daniela Versiani (PUC-RJ), Diana Damasceno (UCAM, UVA e Ferlagos), Flávia Leiroz (PUC-RJ-doutoranda), Heidrun Olinto (PUC-RJ), Marcello de Oliveira Pinto (Uerj-FFP, UniRio), Martha Alkimin (UFRJ) e Valter Sinder (PUC-RJ).

Transcrevo abaixo partes da orelha do livro:

A apropriação inovadora de questões epistemológicas construtivistas de longa tradição na especulação filosófica moderna de Vico, Kant e Vaihinger, entre outros (...) encontra solo fecundo nos estudos de literatura. Tenuamente presentes em diversas propostas desde os anos de 1970, entre elas nos modelos interativos da Estética da Recepção e do Efeito, a sua ressonância foi decisiva nos projetos alternativos da chamada ciência da literatura empírica, emergente na década seguinte, ganhando destaque pelo investimento maciço em pressupostos construtivistas (brandos ou radicais) mobilizados para a elaboração de programas teóricos distanciados de perspectivas positivistas e dualistas.
Os trabalhos reunidos neste volume temático são testemunho da inexistência de uma matriz uniforme e acentuam, antes, a multiplicidade de raízes de diversos discursos construtivistas, de que decorre a riqueza de suas articulações com o fenômeno literário. A sua relevância para a comunidade acadêmica dos estudiosos de literatura consiste na fecunda expansão de repertórios já existentes e, sobretudo, na possibilidade de explorar novos caminhos para o seu entendimento pelo uso de ferramentas do pensamento construtivista, o qual, do ponto de vista epistemológico, representa uma sensível mudança paradigmática em comparação com tarefas e questionamentos tradicionais deste território disciplinar.
Ao recorrer à estratégia de contextualização e historicização de conceitos dominantes em determinado campo disciplinar, as contribuições desta coletânea permitem perceber que as próprias formas de produção de conhecimento nos diversos domínios de saber se constituem por meio de processos construtivos legitimados, em seus respectivos espaços de atuação científica, pela finalidade de encontrar explicações, soluções e sentidos compartilhados para problemas, questionamentos e interesses específicos. E permitem perceber, também, a historicidade desses consensos provisórios, sujeitos a permanentes instabilidades e transformações, condições, a seu turno, para novos questionamentos criativos.
Neste sentido, o volume (...) convida a conhecer e criticar o potencial inovador de discursos construtivistas no espaço dos estudos de literatura, mantendo aceso o saudável hábito do diálogo que proporciona consensos e aceita dissensos.

domingo, 28 de março de 2010

Caim, de José Saramago - uma resenha (bem depois do 1º dia de 2010)

E a última postagem foi no dia 1º de janeiro de 2009! Passei 2009 sem passar por aqui! Muita coisa aconteceu de lá para cá, mas o mais importante foi minha saída do Colégio Militar do Rio de Janeiro. Sou agora professor de Literatura Portuguesa na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, desde 1º de março de 2010...

Aproveito o momento para postar um link de uma resenha que fiz sobre o livro Caim, de José Saramago. Ela pode ser vista em:

http://www.pgletras.uerj.br/palimpsesto/num8/resenhas/Resenha_ClaudioCapuano.pdf

Abraço,

Cláudio

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

No primeiro dia do ano, sobre Iemanjá...

Li agora de manhã, no blog “História em projetos” (http://historiaemprojetos.blogspot.com/), um texto interessante, que trata dos “ritos” ou “rituais” de Ano Novo. Reproduzo abaixo alguns trechos:

(...)
No Brasil, os rituais contemporâneos exigem a presença de água, o que é, sobretudo, uma incorporação de ritos de cultos afros, com as oferendas à Iemanjá, a grande mãe (mãe de todos os orixás), que na mitologia africana é a Rainha do Mar e a Deusa do Amor, chamada também de Dona Janaína, Sereia do Mar, Princesa do Mar, Inaê, Mucunã e é também considerada a Rainha das Bruxas.
Porém no sincretismo religioso brasileiro Iemanjá é Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Piedade, Virgem Maria, Nossa Senhora de Candeias (que também é Oxum!), Nossa Senhora dos Navegantes, cuja data oficial é 2 de fevereiro, mas em 31 de dezembro (réveillon) Iemanjá é a grande cultuada e recebe em geral oferendas que servem à sua vaidade (ela é muito vaidosa!), tais como espelhos, sabonetes, pentes, pulseiras, colares, coroas, velas, perfumes e flores.
Iemanjá no Brasil é cultuadíssima nas cidades portuárias, por reinar sobre as águas e proteger a pesca e pescadores, todavia se constituiu num mito-fenômeno de grande poder de aglutinação e credibilidade, pois quem nela crê diz que ela leva, num passe de mágica, todos os problemas para o fundo do mar.
Não à-toa, para muita gente, em nosso país, celebrar o Ano Novo só pode ser na praia! Quando a celebração ocorre em águas doces as oferendas devem ser pra Oxum, dotada de grande poder de sedução e Rainha das Águas Doces. Mas em geral ninguém lembra... E por todo lado o que se ouve é:
"Iemanjá é a rainha do marIemanjá é a rainha do marSalve o povo de aruandaSalve meu Pai OxaláSalve Oxóssi, salve os guiasSalve Ogum Beira MarIemanjáIemanjá é a rainha do marIemanjá é a rainha do marVai ter festa na aruandaVai ter reza no CantuáVai ter gira a noite inteiraE muitas flores no marIemanjá".
Iemanjá, sabe-se que é uma "Deusa da nação de Egbé, nação esta Ioruba onde existe o rio Yemojá (Iemanjá). Orixá muito respeitada e cultuada é tida como mãe de quase todos os Orixás. Por isso a ela também pertence a fecundidade."
Oxum é "Nome de um rio na Nigéria, em Ijexá e Ijebú. Segunda mulher de Xangô, deusa do ouro, riqueza e do amor. A Oxum pertence o ventre da mulher e ao mesmo tempo controla a fecundidade, por isso as crianças lhe pertencem. Dona dos rios e cachoeiras gosta de usar colares, jóias, tudo relacionado à vaidade, perfumes, etc".
(...)
Foi para Iemanjá que Edu Lobo e Vinicius de Moraes compuseram "Arrastão", celebrizada na voz de Elis Regina, que conquistou o 1º. lugar no I Festival de Música Popular Brasileira (1965):

Arrastão
Edu Lobo e Vinicius de Moraes

Eh, tem jangada no mar
Eh, eh, eh, hoje tem arrastão
Ê, todo mundo pescar
Chega de sombra João
Jovi, olha o arrastão entrando no mar sem fim
Ê meu irmão me traz Yemanjá pra mim

Minha Santa Bárbara
Me abençoai
Quero me casar com Janaína
Eh, puxa bem devagar
Eh, eh, eh já vem vindo o arrastão
Eh, é a rainha do Mar
Vem, vem na rede João
Pra mim
Valha-me Deus Nosso Senhor do Bonfim
Nunca, jamais se viu tanto peixe assim ...

Antonio Risério, no artigo "O ano-novo de Iemanjá" (2007), assim se expressou: "O que aconteceu com Iemanjá, no Brasil, é muito, muito interessante. Ela chegou em terras (e águas, claro) brasileiras aí pela segunda metade do século 18, trazida por negros nagôs – naquela época, vendidos, em boa parte, à Bahia, pelos reis do Daomé.
Mas, ainda nas décadas de 1920 e 1930, no Brasil, um poema sobre Iemanjá era tido – em nossos ambientes sociais economicamente mais privilegiados – na conta de coisa exótica, regionalismo, "pesquisa folclórica". Uma canção antiga de Caymmi – "a alodê Iemanjá oeá" – deveria soar, e soava, para determinados públicos, com algo estranho, distante. Como uma espécie qualquer de mistério remoto.
Hoje, o que a gente vê é coisa totalmente diferente. Todo mundo sabe quem é Iemanjá. Porque houve uma mudança enorme, uma transformação nas estruturas da sensibilidade brasileira. Uma mudança nas relações existentes no interior do conjunto de nossa configuração cultural. Os orixás passaram a povoar, inclusive, o cantão da assim chamada 'cultura superior'. Terreiros começaram a ser tombados, como bens preciosos do povo brasileiro, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Etc. E, no ano novo, levas e levas de brasileiros seguem para as praias, para, de algum modo, falar com a deusa do mar."
E prossegue: "É claro que a Iemanjá brasileira não é mais, exatamente, a Iemanjá africana. Nem poderia ser. A brasileira é brasileira, assim como a cubana é cubana. Mas a matriz, o desenho básico e profundo, está lá, na África. E é ela que atrai multidões para a beira do mar, no ano-novo. A Grande Mãe, com seu axé assentado sobre conchas e pedras marinhas. É ela que faz parte do rito de passagem de ano. Quando todos parecem pedir o recomeço, o renascimento, um novo começo da vida e do mundo."
(...)

Autora: Fátima Oliveira (médica, escritora, especialista em bioética e saúde da população negra e militante da causa negra e das mulheres).
E-mail: fatimaoliveira@ig.com.br
Fonte do texto: Portal Mário Lincoln

domingo, 2 de novembro de 2008

Um achado!

Há pouco mais de um mês, estava em uma grande loja, tipo Casa e Construção. Resolvi pedir uma informação sobre a qualidade de um produto qualquer a um senhor que estava na mesma seção que eu. No ato ele me disse:
-Você não é professor do Colégio Militar?
Disse-lhe que sim. Em suma: ele é pai de um excelente aluno que tivemos no ano de 1998. O aluno está, inclusive, concluindo o curso de engenharia no IME neste mês de agosto de 2008.
Hoje, revirando CDs em que fiz cópias de arquivos antigos, deparei-me com um texto que ele escreveu em 98, a respeito do Colégio Militar em 2009! É que o nosso tema era Ficção Científica.

Segue abaixo o texto:

COLÉGIO MILITAR: O PASSADO PRESENTE NO FUTURO
Estamos no ano de 2009 e sou um aluno do Colégio Militar do Rio de Janeiro. Hoje é dia 6 de maio e conheci alguns ex-alunos que vieram participar da festa do 120º aniversário do colégio.
Esses ex-alunos, que estudaram aqui em diferentes épocas, contaram histórias sobre os problemas de sua vida escolar. Uns disseram que os ventiladores das salas de aula estavam sempre com defeito; outros, mais velhos, nem sonhavam com ventiladores e usavam como uniforme diário uma túnica de mangas compridas.
Conversando com eles, percebi como o Colégio Militar mudou nos últimos anos. Militares circulando por toda parte e a beleza do Palacete da Babilônia foram umas das poucas coisas que não mudaram.
No fim do século XX, o governo percebeu que a solução para a maioria dos problemas brasileiros estava na educação e resolveu investir nessa área. As verbas destinadas ao Colégio Militar aumentaram bastante, o que permitiu que fossem feitas, aqui, várias melhorias.
Hoje, todas as instalações do colégio são modernas e confortáveis. Temos ar refrigerado central em todos os pavilhões e modernos sistemas audiovisuais.
Nossos professores são muito bem remunerados e podem dedicar-se exclusivamente ao colégio, o que ajuda muito no aprendizado dos alunos e no desenvolvimento dos próprios professores, que têm tempo para cursos de aperfeiçoamento.
Estamos totalmente informatizados. Cada aluno possui seu próprio computador na sala de aula e acessando, em casa, a Internet, pode conseguir resumos das aulas, explicações e todas as suas notas.
Nossos uniformes estão sempre impecáveis, graças à descoberta científica de um tecido que não amarrota nunca e quase não absorve sujeira. Nossos sapatos são auto-engraxáveis.
Os cavalos e os carneirinhos são clonados aqui mesmo, nas aulas de Ciências. Nas aulas de Língua Portuguesa, editamos jornais e revistas e divulgamos os vários eventos literários que acontecem no colégio. Nas aulas de Geografia e História assistimos a filmes em três dimensões sobre os vários países do mundo e seus acontecimentos históricos.
No moderno centro de esportes temos várias piscinas térmicas e naturais, quadras com pisos sintéticos e coberturas que podem ser abertas ou fechadas, de acordo com o tempo.
O vestibular também mudou, mas os alunos do Colégio Militar continuam a conseguir os melhores resultados em todas as faculdades.
Apesar de tudo isso, ainda reivindicamos muitas coisas, nos conselhos de classe, pois achamos que podemos melhorar sempre e superar os obstáculos, como nossos antigos colegas fizeram.
Pensando bem, notei que todas as histórias contadas por eles, apesar de mostrarem alguma dificuldade, mostravam mais momentos de muita alegria e felicidade. Reparei que seus olhos brilhavam ao relembrar o passado.
Então, ficou bem claro para mim que uma coisa não mudou, nem mudará nunca por aqui: o orgulho que todos nós sentimos em estudar na “Imperial Casa de Thomaz Coelho” e manter suas tradições: como a festa de 6 de Maio, as formaturas, os desfiles, o nosso hino, nossa saudação colegial e principalmente... nosso companheirismo e amor pelo colégio. Zum, zaravalho!
autor: Aluno 970667 - RAFAEL DA SILVA PEREIRA - 6 ª série - turma 601 - CMRJ - 1998.